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glaucia nogueira

A Jornalista e pesquisadora brasileira, Glaucia Nogueira lançou recentemente o livro «Batuku de Cabo Verde – Percurso Histórico-Musical» que marca a estreia da editora da livraria Pedro Cardoso e logo com uma obra de grande riqueza e que, como indica o título, leva-nos a uma viagem

pelo tempo desde as origens à evolução desta que será a mais antiga manifestação musical de Cabo Verde, com pelo menos 300 anos de existência.

O livro foi primeiro lançado recentemente na cidade da Praia numa cerimónia que contou com sala cheia e a criativa apresentação de Princezito, um dos artistas que figura neste feliz trabalho de investigação sobre este que, mais do que um ritmo, é uma manifestação musical que iniciou com os escravos trazidos e que passaram por Cabo Verde, e continuou com camponeses explorados pelos morgados aos tempos de hoje em que, definitivamente, assumiu-se como uma manifestação musical legítima do povo das Ilhas.

Mas até chegar às salas de espectáculo das cidades, o Batuku, conta Glaucia Nogueira no seu livro, passou por centenas de anos de perseguição, visto como uma manifestação inferior e "nociva aos valores cristãos", daí terem declarados os governantes em determinada altura a sua proibição.

Felizmente, o Batuku resistiu e, mais do que isso, evoluiu alavancado por nomes referidos no livro como o já citado Princezito e outros da actualidade. Destes destacam-se a ainda genialidade de Orlando Pantera, a originalidade de Tcheka, a irreverência de Gil Moreira ou a voz poderosa de Lura ou o requinte da voz de Mayra Andrade. Até o saudoso Ildo Lobo sucumbiu ao encanto do Batuku no seu último disco.

Antes deles houve muitos outros cujos nomes é sinónimo do Batuku tais como Nha Nácia Gomi, Nha Bibinha Cabral, Nho Ntoni Dent D´Oru e outros não tão conhecidos mas igualmente importantes como Nha Gida Mendi, Tchim Tabari, Nha Balila ou Nha Mita Pereira.

Todos estes personagens reais e que dão vida às 160 páginas do livro, seja pelos testemunhos vivos ou pelo estudo e análise das obras daqueles que já não estão connosco em corpo, mas que imortalizaram-se através do seu legado.

O livro, segundo Gláucia Nogueira, numa entrevista exclusiva ao Caboverdeonline, é o resultado da sua monografia de mestrado em Património e Desenvolvimento pela Universidade de Cabo Verde, apresentada em 2011.

Mas segundo ela tudo começa com uma frase, que teria lido algures num dos jornais de há 35 anos atrás, do saudoso jornalista Manuel Delgado e que dizia, mais ou menos, que só com a Independência (em 1975), o Batuku ganhou o direito a subir aos palcos de teatro. Isso porque o cabo-verdiano ganhou o direito escrever a sua História. "Foi aí que eu comecei mesmo a pensar e a aprofundar as minhas pesquisas sobre o Batuku", lembra a autora.

E a frase de Manuel Delgado resume um pouco a história do Batuku que foi também símbolo de resistência e testemunho cantado das dificuldades e sofrimentos dos cabo-verdianos da altura. Daí os temas ligados à vida no campo, as agruras da seca e o inferno das fomes cíclicas daí resultantes em tempos não tão longínquos na memória dos cabo-verdianos. Daí a ideia de que o batuku é, muito mais do que um género musical, uma manifestação musical e cultural, pois que testemunho cantado da história de um povo como retrata Gláucia Nogueira.

Do ritmo "simples" da txabeta de outrora à renovação dos tempos actuais, o Batuku, não só resistiu como evoluiu e, como cantou Orlando Pantera, "Batuku sta na moda". Este género musical conseguiu suplantar as fronteiras do campo e da própria ilha de Santiago, podendo ser hoje também encontrado na ilha do Maio por exemplo, ou mesmo em outras ilhas e na Diáspora, sobretudo no seio das comunidades da ilha de Santiago. É hoje apreciado e cantado por cabo-verdianos em toda a parte. Hoje, assim como a Morna, a Coladeira, o Funaná e outros ritmos, o Batuku é apresentado como uma bandeira das Ilhas.

"O Batuku tem hoje uma força impressionante! Os jovens hoje querem aprender e já não têm o complexo de fazer o batuku ou de ser batukador, ou que as suas mães, pais ou irmãos sejam batukadoris". Para além dos programas de televisão e rádios, etc., proliferam os festivais de Batuku, sobretudo na ilha de Santiago onde o Batuku tem mais expressão, frisa Princezito. Nesta ilha existem pelo menos 200 grupos organizados do Batuku e pelo menos dois na ilha do Maio, segundo este músico e investigador do Batuku.

Um dos temas no livro de Glaucia Nogueira tem a ver com a evolução do Batuku, as novas tendências e instrumentos que vão sendo incorporados neste movimento musical. A autora refuta a ideia de que essa "estilização" do Batuku possa levar ao desaparecimento ou descaracterização do género e, muito pelo contrário, acredita que é aí nessa capacidade de evoluir e adaptar-se aos novos tempos, seja através de novos instrumentos e novas tendências mas, sobretudo, porque continua a cantar os temas actuais da sociedade de cada época.

Assim, hoje já se retratam também temas como o amor, o sexo, a violência nas cidades, a actualidade política e social em geral e que permitiu ultrapassar as fronteiras do campo e ganhar espaço entre os músicos e fãs do pop cabo-verdiano, dando razão à expressão de Orlando Pantera de que "Batuku sta na moda!"

Igual opinião tem Princezito que acredita que "quem desapareceu foi o risco, porque o Batuku não irá morrer jamais!" Gláucia Nogueira reflecte que o mesmo aconteceu com o Funaná em que os mais "puristas" acreditavam que fosse desaparecer quando Katxás e os «Bulimundo» começaram a experimentar o funaná com uma nova roupagem. Não só o funaná tornou-se mais popular como abriu-se ainda mais espaço para os compositores mais tradicionais como o Kodé di Dona ou Sema Lopi. Esta experiencia mostra-nos que haverá sempre espaço para que o tradicional e a inovação possam coexistir, fortalecendo-se um no outro.

Quanto ao livro de Nogueira, Princezito defende que é de uma importância "estrondosa" para um conhecimento mais aprofundado do Batuku, pois que, "quem conhece verdadeiramente um pouco sobre o Batuku somos nós que pesquisamos sobre ele" e infelizmente "somos muito poucos". Sobretudo porque o livro tem esta vertente histórica e antropológica e que vem constituir num importante documento sobre esta manifestação popular cabo-verdiana.

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Quem também mostra-se feliz com esta obra é a Dona Fica, elemento do grupo «Tradison di Tera» e que actuou no evento de lançamento do livro de Gláucia Nogueira. "É bom para levar o Batuku para outros lugares e para as pessoas verem que já se está a dar valor ao Batuku, pois, já até ganhou livro", salienta esta veterana batukadera de 50 anos e desde criança a "brincar" o Batuku.

Com 160 páginas esta obra retrata a evolução do Batuku ao longo de quase 300 anos de registro da sua existência, pois em se tratando de uma tradição oral não haverá muitos dados escritos sobre o género. Da sua repressão nos quilombos aos campos dos morgados, da proibição do Batuku pelos governantes coloniais passando à primeira metade do século XX e o pós-independência, chegando ao século XXI com o fenómeno da "geração Pantera" o leitor pode perceber porque o Batuku é, de facto, uma manifestação musical.

Sem pretender esgotar o tema, pelo contrário a autora espera que possa influenciar outras pesquisas sobre o Batuku e outros géneros musicais cabo-verdianos, sendo certo que esta obra será, doravante, uma bibliografia obrigatória para quem quiser aprofundar ainda mais o seu conhecimento sobre este género que representa parte da nossa História e herança enquanto povo e nação.

Sobre a autora:

Pesquisadora e autora de outras importantes obras, « O Tempo de B.Leza – Documentos e Memórias» (2006) e «Notícias que Fazem a História – A Música de Cabo Verde pela Imprensa ao Longo do Século XX» (2007), Gláucia Nogueira é brasileira, nascida em Santo Anastácio, no Estado de São Paulo. De momento ela tem já pronta, desde 2014, mais uma obra de investigação musical intitulada «Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens" e que aguarda publicação.

Com residência fixa na cidade da Praia desde 2002, licenciada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero no Brasil, Glaucia trabalhou em diversos jornais e revistas. Leccionou na Universidade de Cabo Verde (2012-13) e na Universidade de Santiago (2012).

É também formada em antropologia pela Universidade Aberta de Portugal. Em 2011 defendeu a sua dissertação de mestrado, em Património e Desenvolvimento pela Universidade de Cabo Verde, sobre o Batuku enquanto elemento do património imaterial de Cabo Verde, do qual resultou o livro em questão. Este ano iniciou o doutoramento em Patrimónios de Influência Portuguesa, na Universidade de Coimbra, sendo que pretende dar continuidade à sua investigação sobre a música de Cabo Verde.

 

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